Archive | Janeiro 2014

O Dia em que a Liberdade Religiosa morreu

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Sam Casey estava sentado à cabeceira da maior mesa de reuniões em Washington, a observar, de  boca aberta, o esvaziar de metade da sala e o ferimento grave da liberdade religiosa. Passou-se de repente num dia de Julho em 1999, mas na verdade o esventramento da mais poderosa coligação transpartidária do país estava a ser preparado há semanas.

A história legislativa da liberdade religiosa na América pode ser descrita de muitas formas, mas uma delas é como um jogo de ping-pong.

A Constituição proíbe o Governo Federal de estabelecer uma religião oficial, mas também impede o Governo de colocar obstáculos ao livre exercício da religião. Precisamente o que significa o livre exercício, quem pode ser impedido e como, é um dos assuntos mais melindrosos.

Os casos judiciais modernos começaram nos anos 60 quando uma trabalhadora têxtil chamada Adell Sherbert se converteu aos Adventistas do Sétimo Dia. A fábrica onde trabalhava passou a operar seis dias por semana, obrigando-a a trabalhar ao Sábado, algo que a sua fé não permitia. Foi despedida. O Estado recusou-lhe subsídio de desemprego e ela processou, invocando liberdade religiosa. O Supremo Tribunal deu-lhe razão.

Com esse caso o Tribunal criou o Teste Sherbert, com critérios para determinar se o Governo estava a violar a liberdade religiosa de alguém ou não. A pessoa devia ter uma crença religiosa sincera, sobre cuja prática o Tribunal tivesse colocado um fardo substancial. O Governo devia mostrar a existência de um “interesse constrangedor do Estado” para colocar esse fardo sobre o crente e ainda dar provas de o ter feito da forma menos restritiva possível.

É uma fasquia alta.

Nos anos 80 houve o caso de Alfred Smith e Galen Black, que trabalhavam numa clínica de reabilitação mas fumavam peiote como parte da sua religião nativa-americana. Quando a clínica descobriu, foram os dois despedidos. O Estado recusou-lhes os subsídios. No caso Employment Division v. Smith, o Tribunal acabou com o Teste Sherbert que tinha protegido a liberdade religiosa. A decisão acabou por prender-se com o facto de os homens estarem a cometer um acto ilegal e argumentou que a lei contra o uso de peiote não era dirigida estritamente contra o uso religioso do narcótico, mas contra o seu uso em geral.

Esta decisão, alcançada em 1990, conduziu a uma reacção enorme da comunidade religiosa e dos defensores das liberdades civis. Cristãos de direita e de esquerda, bem como a esquerda secular, galvanizaram-se. A coligação única, que incluía a ACLU, o Congresso Mundial Judaico, a Christian Legal Society e a Coligação pelos Valores Tradicionais, exigiu mudanças.

Tenham em conta que estas associações estavam em lados opostos da discussão sobre o aborto há anos. Ainda assim, estavam de acordo no que diz respeito à liberdade religiosa. Em apenas três anos conseguiram que o Congresso passasse a Lei de Restauração da Liberdade Religiosa, que trouxe de volta o Teste Sherbert. Passou na Câmara dos Representantes por unanimidade e no Senado por 97 votos contra 3, tendo sido assinado pelo Presidente Clinton.

Quatro anos mais tarde foi largamente revogada. No caso City of Boerne v. Flores, em que a cidade de Boerne, no Texas, recusou-se a deixar o bispo católico demolir um edifício histórico para alargar os serviços da Igreja, o Supremo Tribunal determinou que, ao criar a lei, o Congresso tinha ultrapassado os seus poderes ao abrigo da quinta secção da 14ª emenda. Decidiram que a lei obrigava o Governo Federal, mas não os Estados.

A coligação pela liberdade religiosa começou então a preparar a Lei de Protecção da Liberdade Religiosa, com vista a ultrapassar algumas das objecções do Supremo Tribunal, nomeadamente demonstrando a existência de uma necessidade concreta de protecção, por haver pessoas lesadas.

A coligação apresentou no Congresso volumes de provas de discriminação religiosa contra igrejas e pessoas em todo o país, uma “elenco completo”, nas palavras de Casey. A lei passou na Câmara de Representantes por 306-118, uma maioria mais pequena, mas ainda substancial, que incluiu 107 democratas.

Mas depois embateu num obstáculo conhecido como Teddy Kennedy e um mais pequeno conhecido como Joe Biden.

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No espaço de poucos anos, algo tinha mudado.

A coligação convocou uma reunião para o dia 22 de Julho de 1999. Mais de 60 pessoas juntaram-se à volta daquela mesa de reuniões na sede dos Veteranos de Guerras Estrangeiras. Sam Casey, que na altura estava na Christian Legal Society e actualmente trabalha na Jubilee Campaign, presidiu.

Segundo Casey: “Estavam lá todos, esquerda, direita e centro. Há anos que lutávamos juntos, com sucesso. Tínhamos ganho na câmara dos representantes e agora estávamos presos no senado, precisávamos de decidir quais os próximos passos”.

Mas a reunião começou com uma intervenção de Oliver “Buzz” Thomas, do Comité Baptista Conjunto, a anunciar que tinha chegado à conclusão que a Lei de Restauração da Liberdade Religiosa, que estavam precisamente a tentar salvar, era, na verdade inconstitucional. Isto apesar de ele ter ajudado a formulá-la e de ter testemunhado a seu favor. Então anunciou que o seu grupo estava a abandonar a coligação e saiu porta fora.

Metade da sala foi atrás.

Foi nesse instante que Casey e os outros perceberam o quão forte se tinha tornado o lobby gay. A nova objecção da esquerda era de que a liberdade religiosa seria usada para impedir o avanço dos direitos dos homossexuais. Estas objecções nem faziam parte do debate poucos anos antes, mas agora estavam a destroçar a mais potente coligação transpartidária da história dos Estados Unidos e a impedir a criação de legislação que servia para proteger crentes.    Os restantes grupos, exclusivamente da direita cristã, chegaram a um acordo sobre uma lei para proteger a prática religiosa de reclusos, mais nada.

Casey tinha entrado naquela sala convicto de que a sua posição era maioritária mas saiu consciente de que fazia parte de uma minoria remanescente, a tentar preservar o que fosse possível.

Uma das tristes ironias de tudo isto é a questão de animosidade. A decisão no caso Smith obriga o queixoso a provar a existência de animosidade contra si por causa das suas crenças religiosas. No caso dos homossexuais, contudo, os juízes federais e o juiz Kennedy, do Supremo, mantiveram recentemente que a oposição ao casamento homossexual é, por si, prova de animosidade contra os homossexuais e por isso é inadmissível.

Parece que o mundo está de pernas para o ar, e que os homossexuais estão por cima.

Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 10 de Janeiro de 2014)   © 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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A ONU é favorável ou contrária aos cristãos?

 Relatórios apontam favorecimento de um lado e perseguição de outro


Relatórios apontam favorecimento de um lado e perseguição de outro

O recente relatório “ONGs religiosas e as Nações Unidas” afirma que as ONGs cristãs continuam a ser maioritárias, o que gerou crítica de outros grupos religiosos. Oficialmente, mais de 70% das ONGs religiosas ligadas à ONU são cristãs, afirma o estudo liderado pelo professor Jeremy Carrette e do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade de Kent, na Inglaterra.

Proporcionalmente, o financiamento também vai na sua maioria para as ONGs cristãs, o que limita o repasse a outros grupos religiosos, como o hinduísmo e o budismo. As ONGs muçulmanas preferem buscar apoio da Organização para Cooperação Islâmica (OCI), que reúne 57 países islâmicos e funciona em paralelo à ONU.

O professor Carrette afirma: “É necessária uma ‘boa vontade global’ para que o sistema das Nações Unidas contemple todas as religiões da mesma forma… O relatório também mostra que as religiões constituem uma parte importante da política global internacional e que, num mundo globalizado, precisamos de estabelecer um novo contrato pluralista para a igualdade de acesso a todas as religiões dentro do sistema das Nações Unidas”.

Entre as ONGs religiosas mais ativas estão as de origem católicas, quakers (protestante) e da fé Baha’i, que fazem o maior número de reuniões com os diplomatas da ONU.

Por outro lado, após o vigésimo aniversário de fundação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, a ONG Direitos Humanos Sem Fronteiras publicou uma denúncia contra a ONU. A principal queixa é que oito dos 47 países que possuem assentos no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas mantiveram pessoas presas em 2013 por questões religiosas.

Divulgado no dia 30 de dezembro, o relatório Liberdade de Religião Mundial e Lista de Prisioneiros aponta que Marrocos, China e Arábia Saudita, Índia, Indonésia, Cazaquistão, Líbia e Coreia do Sul não podem defender os direitos humanos se não são capazes de respeitá-los no seu próprio território.

Segundo o relatório do Direitos Humanos Sem Fronteiras (DHSF), centenas de crentes e ateus foram presos nesses e noutros 16 países numa tentativa de se proibir os direitos relacionados a questões religiosas, incluindo a liberdade de mudar de religião, compartilhar crenças, realizar cultos e reuniões religiosas públicas. As violações relacionadas à difamação religiosa e blasfémia também estão incluídas no relatório.

China, Marrocos, Arábia Saudita, Índia, Indonésia, Líbia, Cuba, México, Paquistão, Emirados Árabes Unidos e Maldivas que tem assentos no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas prenderam cristãos em 2013. O relatório aponta ainda que Eritreia, Irã, Coreia do Norte e Arábia Saudita são de “especial preocupação” pelo grande número de prisioneiros religiosos que mantém.

Em comunicado oficial, a DHSF exige que a ONU se pronuncie em favor dos prisioneiros (na sua grande maioria cristãos), pois para participar da Comissão, o termo assinado afirma que “os Estados-Membros devem manter os mais altos padrões na promoção e proteção dos direitos humanos”.

Willy Fautre, diretor da DHSF, disse ainda que “Nosso desejo para o Ano Novo é que estes e os outros Estados membros do Conselho de Direitos Humanos possam dar um bom exemplo para outras nações do mundo, liberando esses prisioneiros de consciência e não privando nenhuma outra pessoa de liberdade por causa de suas crenças em 2014”.

Fonte: Gospel Prime, com informações Washington Post e Independent

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