Abate ritual provoca choque de culturas na Holanda

Duas tradições distintas se chocaram no parlamento holandês na noite desta quarta-feira: tolerância religiosa versus direitos dos animais. Uma está enraizada em séculos de história holandesa, a outra é um desenvolvimento recente que rapidamente se tornou um elemento da identidade do século 21.

A causa do conflito é a proposta de proibição a abates de animais sem anestesia, como é prescrito pelas leis religiosas judaica e muçulmana. Defendendo a tolerância religiosa, o parlamentar cristão-democrata Henk Jan Ormel, que é também veterinário, argumentou contra a proposta baseado nos valores holandeses.

“Num período em que a nova crença dominante parece ser a crença na ciência, a defesa da liberdade religiosa tem importância ainda maior. A tolerância em relação aos que pensam de maneira diferente também vai além da religião. Tolerância é uma parte essencial de nossa identidade nacional.”

Comoção
Ormel falou enfaticamente. A comoção sobre o assunto era grande e o debate parlamentar continuou até a madrugada. Também resultou numa parceria pouco usual entre as comunidades judaica e muçulmana. Os dois grupos são minorias na sociedade holandesa, ambos se sentem perseguidos e ambos eram apoiados pelos três partidos cristãos no parlamento holandês.

Do outro lado, o movimento de direitos dos animais vem ganhando força política desde que o Partidos pelos Animais conquistou duas cadeiras no parlamento em 2006. Eles combinam habilidade política com a energia e determinação de ativistas completamente convencidos de seu ponto de vista.

Discordância profunda
A proposta de proibição do abate sem anestesia feita pelo Partido pelos Animais tornaria o abate kosher dos judeus, e o abate halal dos muçulmanos, ilegal. A questão dividiu o parlamento holandês e chegou a criar fissuras em alguns partidos.

 

A questão está em quanta dor um animal sente durante o abate. O Partido pelos Animais está convencido que o abate ritual causa muito mais dor que o abate com anestesia – uma convicção que é confirmada por vários estudos científicos.

Mas alguns pesquisadores concordam com as comunidades judaica e muçulmana que, quando feito corretamente, o abate ritual não é pior que o abate convencional.

Meio termo?
Agora, um possível acordo foi apresentado: os liberais do governo, junto com três partidos de oposição, propuseram uma emenda que apóia a proibição mas permite exceções por motivo religioso. Esta exceção dependeria de firme evidência de que o abate ritual não causa mais sofrimento. Opositores da proibição teriam cinco anos para provar que o abate ritual protege o bem-estar do animal e a Associação Europeia de Segurança Alimentar tem que aprovar.

Uma que defende a emenda é a democrata do partido D66, Stientje van Veldhoven. Ela diz: “Nós não queremos excluir a possibilidade de que podem existir métodos de abate sem anestesia que sejam tão adequados para o bem-estar do animal quanto o abate convencional.”

A parlamentar que apresentou a proposta de proibição, Marianne Thieme, líder do Partido pelos Animais, diz que pode aceitar a proposta de acordo, mas não vê possibilidade de exceção a curto prazo.

“Os cientistas, aqui na Holanda, mas também na Europa e no resto do mundo, afirmam que o abate sem anestesia causa mais sofrimento do animal. Naturalmente, pode ser que no futuro surjam métodos melhores. O Partido pelos Animais será sempre a favor do método mais ‘humano’. Portanto, quando houver provas disso, não teremos problemas em aceitar.”

Organizações judaicas e islâmicas não se contentaram com o acordo. Elas alegam que ele não protege o direito ao abate ritual em si, mas põe o futuro do abate kosher e halal nas mãos de cientistas.

O ministro da Agricultura Henk Bleker advertiu que a proibição proposta pelo Partido pelos Animais pode entrar em “sérias tensões” com a constituição holandesa. Ele prometeu ao parlamento que estudará a emenda proposta e que tentará aliviar estas tensões.

O parlamento irá votar a proposta de proibição na próxima terça-feira. Só então se saberá se o embate entre as tradições holandesas de tolerância religiosa e bem-estar dos animais pode ser resolvido por outra tradição holandesa: o acordo.

 

O abate ritual em outros países

Suécia, Suíça, Noruega e Islândia atualmente proíbem o abate ritual.

Uma diretiva da União Europeia de 1988 pede anestesia antes do abate, com exceção para o abate ritual. O Parlamento Europeu votou em 2009 pela manutenção da exceção.

A atual lei holandesa que permite o abate ritual data de 1919. Entre 1892 e 1938, muitos países europeus baniram o abate ritual como parte da onda de antissemitismo que assolou a Europa.

fonte: RNW

Anúncios

About Fundacao AIS

Organização internacional católica, dependente da Santa Sé, cuja missão é ajudar os cristãos perseguidos por causa da sua fé. Procura estar atenta às várias situações de necessidade destes cristãos, particularmente a falta de liberdade religiosa. Para isso, publica periodicamente um Observatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo www.fundacao-ais.pt/

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: