A “Separação”

A “Separação” republicana prometeu a liberdade religiosa. Mas regressando ao século XVII percebe-se que nem todas as concepções de tolerância são iguais. Umas visam proteger os interesses da religião; outras sujeitá-la. A diferença não é irrelevante.

 
Nas vésperas do centenário da Lei da Separação, a mais célebre que a Iª República chegou a fazer, a Universidade Católica organizou um Congresso internacional para discutir o tema. Nesse Congresso, propus, em primeiro lugar, que se estendesse o alcance da palavra “Separação”.

Assim, não seria apenas a separação institucional e jurisdicional entre Igreja e Estado que estaria em causa, mas algo mais profundo. A “Separação” em que eu estava a pensar consistia na cisão entre os hábitos comuns e os ritos, entre a sociedade e o clero, entre as pessoas e a crença religiosa, entre a moral e a religião, entre o mundo e Deus.

Em segundo lugar, sugeri que, se fosse admitido que o objectivo último da “Separação” institucional tal como foi levada a cabo pela Iª República era precisamente a separação no sentido mais abrangente do termo, então encontraríamos a sua origem intelectual nos debates europeus no século XVII em torno do tema da tolerância. E aí um homem chamado Pierre Bayle mudaria para sempre a história da Europa.

Bayle foi o primeiro europeu a colocar em cima da mesa a possibilidade histórica de uma “sociedade de ateus”. Foi o primeiro a contrariar uma ideia assente na consciência europeia, que previa o caos, a violência, a rapacidade e a devassidão para uma sociedade exclusivamente povoada por ateus, e a declarar a sua sustentabilidade.

Mais: declarou a sua superioridade face a sociedades “idólatras”, para usar uma expressão que muito lhe agradava. Numa palavra, pegou no impensável e tornou-o pensável, para na mesma penada torná-lo desejável.

A “Separação” republicana prometeu a liberdade religiosa. Mas regressando ao século XVII percebe-se que nem todas as concepções de tolerância são iguais. Umas visam proteger os interesses da religião; outras sujeitá-la. A diferença não é irrelevante.

Miguel Morgado (fonte RR)

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About Fundacao AIS

Organização internacional católica, dependente da Santa Sé, cuja missão é ajudar os cristãos perseguidos por causa da sua fé. Procura estar atenta às várias situações de necessidade destes cristãos, particularmente a falta de liberdade religiosa. Para isso, publica periodicamente um Observatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo www.fundacao-ais.pt/

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