Archive | Maio 2010

Liberdade religiosa perde terreno

Em 29 de abril, a Comissão para a Liberdade Religiosa Internacional dos Estados Unidos (USCIRF) publicou seu relatório anual. Junto com uma revisão da violação dos direitos humanos em muitos países, ao tratar a liberdade de culto, o relatório também continha as recomendações do ano 2010 sobre as nações que a comissão considera que deveriam ser qualificadas como “países de preocupação especial” ou CPCs.

A USCIRF, que é uma comissão independente do governo, pressionava de forma que 13 nações – Birmânia, China, Coreia do Norte, Eritreia, Irã, Iraque, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudita, Sudão, Turcomenistão, Uzbequistão e Vietnã – fossem designadas como CPCs.

Além disso, a USCIRF anunciou que os seguintes países estão na Lista de Observação da USCIRF de 2010: Afeganistão, Belarus, Cuba, Egito, Índia, Indonésia, Laos, Rússia, Somália, Tadjiquistão, Turquia e Venezuela. Trata-se de Estados que requerem uma supervisão de perto devido às violações da liberdade religiosa.

O relatório também expressava seu descontentamento com o governo dos Estados Unidos. Na apresentação do relatório, o membro da comissão Leonard Leo afirmava que “a conclusão do relatório está clara: nosso governo deve fazer mais”.

De acordo com Leo, “a política externa dos Estados Unidos sobre liberdade religiosa não está à altura”. Apontou como criticável o fato de que até agora não foi nomeado qualquer embaixador para a Liberdade Religiosa, depois de um ano que a nova administração chegou ao poder.

Entrando mais adiante em suas críticas, Leo comentava que, após algumas palavras duras sobre a liberdade religiosa do presidente Obama em seu discurso na cidade do Cairo, “as referências presidenciais à liberdade religiosa ficaram estranhas”.

Somava, ainda, que “o mesmo vale para muitos dos discursos do secretário de Estado, Clinton”.

Leo reconhecia que tratar do tema da liberdade religiosa não é fácil. Observava que, durante as missões realizadas pela comissão a países como a Nigéria e o Egito, há uma falta de assunção de responsabilidades, a qual permite que os indivíduos ataquem e até mesmo assassinem quem divergir dos pontos de vista religiosos deles.

Mas é justamente devido às graves violações da liberdade religiosa que se torna vital que a política externa dos Estados Unidos melhore na hora expor e castigar tais situações, insistia Leo.

Responsabilidade

O mesmo relatório detalhava mais amplamente os problemas de muitos países. Com relação ao ponto mostrado por Leo sobre a falta de assunção de responsabilidades, a comissão visitou a Nigéria 3 vezes no ano passado.

Tem havido, como mostrava o relatório, ondas selvagens de violência sectária. Desde 1999, nada menos que 12 mil nigerianos foram assassinados em 12 incidentes, de acordo com a USCIRF.

Tanto cristãos como muçulmanos têm sido vítimas e agressores, mas o relatório apontava que até agora ninguém tem sido detido, nem condenado, em uma década de violência religiosa.

Outro país assinalado no relatório, por seu histórico, foi a Birmânia, com um dos piores arquivos em direitos humanos do mundo. A situação da liberdade religiosa se deteriorou durante o ano passado, de acordo com a comissão, e o regime militar restringe seriamente a prática religiosa, além de controlar a atividade de todas as organizações religiosas.

Assim mesmo, o governo tem proibido a atividade protestante não registrada e continua destruindo lugares religiosos e promovendo a conversão forçada ao Budismo nas áreas de minorias étnicas.

Na China, o relatório indicava que o governo continua se envolvendo em violações sistemáticas da liberdade de religião ou crença. Além disso, no ano passado ocorreu uma clara deterioração nas áreas budista tibetana e uigur muçulmana.

As autoridades chinesas continuam com sua campanha contra os grupos cristãos não registrados, com milhares de protestantes detidos nos últimos dois anos. E mais de 40 bispos católicos continuam na prisão ou estão desaparecidos.

Todas as atividades religiosas estão sujeitas a uma marca política e legal rígida que bloqueia muitas atividades protegidas pelos direitos humanos internacionais, inclusive tratados que a China assinou ou ratificou, observava o relatório.

Países islâmicos

Certo número de países incluídos no grupo CPC ou na Lista de Observação são nações de maioria muçulmana. Nestes países, a atenção do Ocidente é normalmente centrada na perseguição dos cristãos, mas algo interessante expressado pela comissão é que na maioria desses países muçulmanos normalmente o caso é que os governos reprimem muito mais a prática livre do próprio Islã.

No caso do Irã, o governo não só continua oprimindo os wahabies e os cristãos, como também os fiéis muçulmanos. O relatório dizia que os muçulmanos dissidentes estão cada vez mais sujeitos a abusos e, em ocasiões, condenados à morte e até mesmo executados pela pena capital de moharabeh, ou “empreender a guerra contra Deus”.

De igual forma, no Iraque, junto à permanente tolerância do governo aos sérios abusos contra a liberdade de religião, continua havendo ataques e uma relação tensa entre xiitas e sunitas. Também há violência, motivada pela religião, contra as mulheres e contra os muçulmanos que rejeitam certas interpretações rígidas do Islã.

Na Arábia Saudita, o governo prossegue negando toda a forma pública de expressão religiosa que não seja da própria interpretação do governo, de uma escola sunita. Esta restrição não só é imposta aos não-muçulmanos, como também aos muçulmanos. O relatório dizia que os muçulmanos ismailis continuam sofrendo discriminações sérias e abusos devido à sua identidade religiosa.

Além disso, o governo continua atuando duramente contra os dissidentes muçulmanos xiitas, com numerosas apreensões e detenções. A Arábia Saudita continua, também, apoiando uma estratégia mundial de promoção de “uma ideologia extremista e, em alguns casos, a violência com os não-muçulmanos e com os muçulmanos não aprovados”.

Alguns muçulmanos também enfrentam problemas semelhantes no Afeganistão, observava o relatório. Por exemplo, um ministério do governo recolheu e destruiu uma remessa de livros religiosos xiitas provenientes do Irã, porque continham interpretações do Islã consideradas ofensivas para a maioria da comunidade sunita.

Deterioração

Na seção do relatório dedicada à Rússia, mais evidências sobre a deterioração da liberdade religiosa no mundo. A comissão afirmava que a situação na Rússia está piorando, como resultado de novas políticas e tendências. Uma delas é o uso, por parte do governo, da legislação antiextremista contra grupos religiosos que não são conhecidos pelo uso ou defesa de violência.

O relatório também comentava que os funcionários dos governos nacional e local violam cada vez mais a liberdade religiosa dos muçulmanos e dos grupos que consideram como não-tradicionais, fazendo cumprir outras leis, como as de organizações religiosas e organizações não-governamentais.

“Os funcionários russos continuam descrevendo certos grupos religiosos como alheios à cultura e à sociedade russa, de modo que contribuem para um clima de intolerância”, comentava o relatório.

O relatório também chamava à atenção a situação da Turquia, onde “continuam tendo lugar graves limitações à liberdade de religião ou credo”. Não só há restrições à maioria da comunidade muçulmana sunita, mas também muitas minorias sofrem, como o cristianismo.

Para as comunidades não-muçulmanas, é negado o direito de possuir e manter propriedades; são proibidas de preparar o clero e não lhes permitem oferecer educação religiosa.

De acordo com o relatório, prolongam-se no Egito graves problemas de discriminação, intolerância e outras violações dos direitos humanos contra membros de minorias religiosas.

A comissão comentava que, durante os últimos anos, houve um aumento da violência contra os cristãos ortodoxos cópticos. Acusava o governo de não dar os passos suficientes para acabar com a repressão e a discriminação contra os cristãos e os crentes de outras religiões.

Outro país com problemas sérios é o Sudão. O relatório indicava que o governo da nação comete violações sistemáticas à liberdade de religião. Tanto os cristãos como os muçulmanos que não seguem a interpretação governamental do Islã sãos objetivos das autoridades.

Infelizmente, para a maioria dos políticos, tanto na América do Norte como em outros lugares, a liberdade religiosa não está em um bom lugar em sua lista de prioridades. Cabe aos crentes fazer que sua voz seja ouvida para curar esta negligência.

P. John Flynn, L.C. (Zenit)

Tendências religiosas na África Subsaariana

A Fundação Pew Forum on Religion and Public Life publicou há pouco um relatório sobre a mudança drástica de afiliação religiosa na população da região subsaariana da África.

No começo do século XX, os muçulmanos e os cristãos eram só uma minoria pequena, que juntos somavam menos de 25% da população. A grande maioria praticava religiões tradicionais africanas.

Durante o século passado, os papéis mudaram e o número de muçulmanos multiplicou por 20, até cerca de 234 milhões no ano 2010. Os cristãos experimentaram uma transformação até mesmo maior, multiplicando-se por 70, passando de cerca de 7 milhões a 470 milhões.

O relatório especificava que é compensada a preponderância de cristãos na parte subsaariana de África pela parte norte do continente, onde a fé islâmica é predominante. Por conseguinte, o continente africano, num todo, tem o mesmo número de cristãos e muçulmanos, de 400 a 500 milhões de seguidores de cada religião.

Em geral, a África subsaariana conta com não menos que 21% de toda a população cristã mundial. Os muçulmanos têm 15% da sua população mundial nesta região.

As estatísticas do Pew Forum sobre o crescimento religioso na África recebiam um certo respaldo até há poucos dias, quando o Vaticano publicou um resumo de alguns dos dados recolhidos  na nova edição do Anuário Estatístico da Igreja. De acordo com uma nota do Vatican Information Service, de 27 de Abril, para o período 2000-2008 o número de católicos no mundo cresceu de 1.045 milhões no ano 2000 a 1.166 milhões em 2008, um aumento de 11,54%.

Analisados os dados mundiais, constatou-se uma enorme diversidade geográfica. Nos extremos estavam a África, com um crescimento de 33%, e a Europa, onde o aumento foi de 1,17%.

Limites

Não obstante, no relatório de Pew Forum também foi afirmado que o crescimento rápido do século passado pode não continuar nos próximos anos e, em seu lugar, qualquer aumento será limitado principalmente ao que acontece como resultado do crescimento demográfico natural.

Isto se deve ao fato de que a maioria das pessoas na região já está comprometida com o Cristianismo ou com o Islamismo, deixando poucas possibilidades de conversões. Na maioria dos países, 90% ou mais se consideram cristãos ou muçulmanos.

Além disso, há poucas evidências que demonstrem que na África subsaariana tanto Cristianismo como o Islamismo possam crescer à custa do outro. Com a exceção da Uganda, só uma pequena porcentagem de muçulmanos tornou-se cristã e uma porcentagem menor de cristãos converteu-se ao islã.

Além das estatísticas sobre convicções religiosas, uma grande parte do relatório do Pew Forum consistia em resultados de pesquisas recolhidas em mais de 25 mil entrevistas cara-a-cara em mais de 60 idiomas ou dialetos diferentes de 19 países. Foi levado a cabo para se determinar como veem as pessoas da África subsaariana o papel da religião nas suas sociedades.

A pesquisa revelou até que ponto a região é profundamente religiosa. Ela desejou saber quanto pessoas acham importante a religião nas suas vidas: muito importante, algo importante, não muito importante, de modo algum importante.

Os resultados para a África subsaariana revelaram que, em muitos países, não menos que 90% das pessoas disse que a religião é muito importante nas vidas delas.

O relatório comparou esta com outras pesquisas feitas em outros continentes nos últimos anos. Inclusive as nações menos religiosas do subsaara eram muito mais religiosas que os Estados Unidos, onde 57% declararam que a religião é muito importante para eles.

Outros países ocidentais têm porcentagens igualmente inferiores de pessoas que declararam que a religião é muito importante nas suas vidas: Polônia, 33%; Alemanha, 25%; Itália, 24%; Grã Bretanha, 19%.

Isto contrasta com a Ásia e Oriente Médio onde, como na África, alguns países alcançam números de 90% para esses que declaram que a religião é muito importante. Índia, Bangladesh, Indonésia e Kuwait estão entre eles.

Coexistência

Apesar do rápido crescimento do Cristianismo, como do Islamismo, as religiões africanas tradicionais continuam tendo grande força. Na realidade, elas normalmente coexistem com o Islamismo e o Cristianismo em um tipo de um sincretismo religioso. Sem importar as incoerências teológicas que isto gera, observou a pesquisa que esta mistura de crenças é uma realidade diária nas vidas das pessoas.

Muitos africanos continuam acreditando na feitiçaria, nos espíritos malignos, nos sacrifícios para os antepassados e nos curandeiros tradicionais religiosos. Por exemplo, em quatro países (Tanzânia, Mali, Senegal e África do Sul) mais da metade das pessoas entrevistadas acreditam que os sacrifícios para os antepassados ou espíritos podem lhes proteger de danos. E uma porcentagem significante de cristãos e muçulmanos – 25% ou mais em muitos países – dizem que acreditam no poder protetor dos encantamentos ou dos amuletos.

Além de mostrar um nível alto de fé no poder protetor das oferendas de sacrifícios e de objetos sagrados, mais que um de cada cinco, em todos os países, disseram acreditar em “olho gordo”, ou na qualidade de algumas pessoas lançarem maldições ou encantamentos malignos.

Segundo o relatório, não existe um padrão claro entre cristãos ou muçulmanos quanto ao grau de convicção nas religiões africanas tradicionais. Estas práticas tradicionais são comuns nos países de maioria muçulmana, em países com maior mistura de cristãos e muçulmanos, e nos países de maioria cristã.

Tolerância

Quando se trata de relações entre o Cristianismo e o Islamismo, a pesquisa atestou que para muitos cristãos e muçulmanos na África subsaariana não há problemas significativos e, em geral, há tolerância mútua. Na realidade, as pessoas, em geral, declaram que o desemprego, o crime e a corrupção são problemas maiores que o conflito religioso.

Os cristãos africanos têm mais dúvidas sobre o Islamismo, com 40% ou mais em uma dúzia de países que afirma considerar que os muçulmanos são violentos. É necessário notar que cerca de 6 de cada 10 nigerianos e ruandeses afirmaram que os conflitos religiosos são um problema muito grande em seu país.

Os muçulmanos tendiam a ser mais positivos nas declarações sobre os cristãos e muitos muçulmanos dizem que estão mais preocupados com o extremismo muçulmano que para o extremismo cristão.

Porém, com relação ao matrimônio, tanto entre muçulmanos como cristãos, muitos expressam intranqüilidade quanto aos matrimônios inter-religiosos. A metade ou mais dos cristãos de oito países e mais que metade dos muçulmanos de doze, afirmaram que não se sentiriam cômodos se um de seus filhos fosse se casar com alguém da outra fé.

Em geral, a grande maioria dos crentes disse que a violência contra os civis em defesa da própria religião raramente, ou nunca, tem justificativa. Não obstante, há uma minoria significativa – 20% ou mais – em muitos países disse que a violência contra os civis em defesa da própria religião às vezes, ou freqüentemente, é justificada.

E com relação à interação entre religião e sociedade, o relatório descobriu que em quase todos os países entrevistados, a grande maioria acredita que é necessário crer em Deus para ser ético e ter valores bons. Pelo menos três de cada quatro pessoas em quase todos os países acreditam que há padrões claros e absolutos de bem e de mal.

Assim mesmo, a grande maioria em quase todos os países também afirmou que a música, os filmes e as emissoras de TV ocidentais têm danificado seus valores morais.

Em tópicos como o aborto, a prostituição, o suicídio ou o comportamento homossexual, tanto cristãos como muçulmanos expressam uma posição muito forte, com 9 de cada 10 pessoas em muitos países que consideram estas práticas como moralmente ruins.

Um grande número de pessoas de toda esta área expressa um grande apoio para a democracia. Ao mesmo tempo há um apoio considerável entre os muçulmanos e cristãos em fundar os direitos civis com base na Bíblia ou na lei islâmica do shariah.

De acordo com o relatório do Pew Forum, em praticamente todos os países examinados, uma minoria significativa de cristãos está a favor de fazer da Bíblia a lei oficial do país. De igual forma, um grande número de muçulmanos diz que gostariam de impor o shariah.

Os resultados do relatório deixam claro que a África será um lugar para se observar com interesse nos próximos anos.

Pe. John Flynn, L. C.  – ROMA, 16 de maio de 2010 (ZENIT.org)

A maior perseguição à Igreja nasce do pecado em seu interior

Respondendo a um jornalista no voo que nesta manhã de terça-feira feira o levou a Portugal, Bento XVI explicou que a maior perseguição sofrida pela Igreja nasce do pecado que ocorre em seu interior.

A bordo do Airbus 320 da Alitalia, no início de sua 15ª viagem apostólica internacional – a primeira para Portugal -, Bento XVI respondeu a uma pergunta que muitas pessoas gostariam de ter-lhe feito.

O jornalista perguntou-lhe se seria possível ver na mensagem de Fátima uma alusão ao atentado sofrido por João Paulo II e também aos sofrimentos que a Igreja vive hoje, por conta dos casos de abusos sexuais contra menores cometidos por membros do clero.

Bento XVI respondeu que o que poderia ser descoberto de novo ainda hoje na Mensagem de Fátima é nela se ver a “paixão” que acomete a Igreja, que “se reflete na pessoa do Papa”.

“Não vêm apenas de fora os ataques contra o Papa e a Igreja, mas os sofrimentos da Igreja têm origem do interior da própria Igreja, do pecado que existe no seio da Igreja”, acrescentou.

“Sempre se soube disso, mas hoje podemos constatar de maneira realmente aterradora: a maior das perseguições contra a Igreja não advém de inimigos externos, mas nasce do pecado no seio da Igreja, e a Igreja, portanto, tem uma profunda necessidade de reaprender a penitência, de aceitar a purificação, de aprender, por um lado, o perdão, mas também a justiça. O perdão não substitui a justiça.”

O Papa sustentou que “o Senhor é sempre mais forte que o mal e Nossa Senhora é, para nós, a garantia visível, maternal, da bondade de Deus, que é sempre a última palavra na história”.

Anteriormente, o Pontífice havia respondido a uma pergunta sobre a realidade da secularização de Portugal – um país profundamente católico.

Bento XVI reconheceu, em primeiro lugar, a presença ao longo dos séculos de uma “fé corajosa, inteligente e criativa”, testemunhada pela nação lusitana também em várias partes do mundo, como no Brasil. Mesmo notando “a dialética entre fé e secularização em Portugal”, não faltam pessoas dispostas a “criar pontes” e “criar diálogo” entre as duas posições.

“Penso que é precisamente esta a tarefa, a missão da Europa neste contexto: encontrar este diálogo, integrar fé e racionalidade moderna numa única visão antropológica que complete o ser o humano e torne comunicáveis as culturas humanas”, constatou.

“A presença do secularismo é algo normal, mas a separação, a contraposição entre secularismo e a cultura de fé é anômala e deve ser superada – disse o Papa. O grande desafio neste momento é favorecer o encontro dos dois, para que assim se descubra sua verdadeira identidade. Esta é uma missão da Europa e uma necessidade humana em nossa história.”

Bento XVI também respondeu a uma pergunta referente à crise econômica, que segundo alguns, coloca em risco a estabilidade da própria União Europeia.

Partindo da doutrina social da Igreja, que convida o positivismo econômico a dialogar com uma visão ética da economia, o Papa confessou que a fé católica tem deixado, com frequência, as questões econômicas de lado para dedicar-se primordialmente “à salvação individual”.

“Toda a tradição da doutrina social da Igreja busca ampliar o sentido ético e o da fé, para, além do indivíduo, abordar a responsabilidade do mundo, e uma racionalidade ‘moldada’ pela ética. Os últimos eventos ocorridos no mercado, ao longo dos últimos dois ou três anos, têm demonstrado que a dimensão ética está circunscrita e deve estar inserida no agir econômico”.

“Apenas dessa forma a Europa cumprirá sua missão”, concluiu.

Minaretes na Suíça e campanários na Arábia

A proibição de construir novos minaretes na Suíça, aprovada em referendo a 29 de Novembro passado, foi logicamente muito censurada. Mas certas críticas tiveram algo de paradoxal.

Bernard Kouchner, ministro francês dos Negócios Estrangeiros, declarou-se «consternado» com a decisão dos eleitores, e espera – acrescentou – que daqui a algum tempo a venham a revogar. Talvezd evessem ter feito na Suíça como em França, onde vetaram todos os «símbolos religiosos ostensivos» na escola pública para desterrar dela o hiyab de algumas alunas muçulmanas. Se tivessem mostrado mais subtileza, os suíços teriam proibido as torres de edifícios de culto em geral. Pelo contrário, foram mais sinceros, e não quiseram dissimular que não se dirigiam contra sinais ostensivos de religião em geral, mas precisamente e apenas contra um destacado símbolo muçulmano.

Por outro lado, o plebiscito serviu para que a Organização da Conferência Islâmica tenha descoberto a universalidade dos direitos humanos. O secretário-geral, o turco Ekmeleddin Ihsanoglu, qualificou a proibição de «discriminatória». Considera-a, além disso, uma violação de «direitos fundamentais, incluindo a liberdade religiosa», e, portanto, «contrária aos direitos humanos universais». Estas palavras não vão consolar os compatriotas de Ihsanoglu que são cristãos, pois, sem necessidade de veto constitucional aos campanários, na Turquia continua a ser praticamente impossível edificar uma igreja, ou mesmo reparar simplesmente uma que esteja deteriorada.

Obstrução análoga sofrem os coptas no Egipto. No entanto, o grande mufti Ali Gomaa considera que a proibição de minaretes em solo suíço é «não só um ataque à liberdade de crenças, como um insulto aos sentimentos da comunidade muçulmana dentro e fora da Suíça».

Que a propósito do referendo haja tão inopinados defensores da liberdade religiosa em casa alheia não torna em si a medida aprovada merecedora de melhor opinião. Mas convida a fazer comparações. E não se pode negar que, mesmo a partir de agora, a Suíça é menos restritiva com o Islão que a generalidade dos países muçulmanos com aqueles que não o são.

A Suíça proibiu somente os minaretes, não os templos, nem os actos de culto, nem qualquer outra manifestação de fé muçulmana. Pelo contrário, na Argélia é expressamente proibido aos não muçulmanos toda a liturgia ou oração fora dos lugares autorizados, assim como procurar a conversão de um muçulmano ou difundir literatura de outra religião.

No Paquistão, a intolerância contra os cristãos tem a cobertura da lei contra a blasfémia, castigada até com a pena capital. Na Arábia Saudita não pode haver igrejas, nem culto público não muçulmano; é ilegal introduzir uma Bíblia, e os exemplares que a polícia descobre são confiscados e destruídos, enquanto o infractor pode ser condenado à morte, como se sabe que ocorreu pelo menos num caso. A Malásia não reconhece a mudança de religião de um muçulmano, e continua a considerar o converso sujeito aos tribunais da sharia em matéria familiar, pelo que não se pode casar com um infiel. Muito menos Marrocos admite que um súbdito do rei, Comendador de todos os Crentes, não seja muçulmano.

Às leis contrárias à liberdade religiosa e às restrições administrativas claramente discriminatórias – como a edificação ou manutenção de templos, mencionadas atrás – devem acrescentar-se as agressões de facto. Os cristãos sofrem perseguição de modo sistemático no Iraque e na Somália; esporadicamente no Paquistão, Turquia, Egipto.

Por isso, custa admitir as censuras à nova lei suíça sem suscitar simultaneamente a questão da reciprocidade. Como salienta Ana Romero no El Mundo (1 de Dezembro de 2009), embora não defenda a proibição de minaretes: «A muitos europeus é difícil entender porque a Europa tem de ser tolerante em relação a um Islão que não o é no mesmo grau.»

Mas o recente referendo é um caso de reciprocidade errada. Embora o veto aos minaretes não retire aos muçulmanos na Suíça o direito e a possibilidade real de professar e praticar a sua fé, de facto marginaliza-os com uma restrição que não é imposta a outros.

A Conferência Episcopal Suíça considera a medida um «obstáculo à integração no diálogo e respeito mútuo» e adverte que «não ajudará os cristãos oprimidos e perseguidos em países islâmicos».

A liberdade religiosa e os restantes direitos humanos não são concessão de ninguém: têm de ser reconhecidos e respeitados em qualquer caso, não em troca de nada. Isto vale o mesmo na Suíça ou em todos os países islâmicos.

Correio AESE

Liberdade religiosa está em perigo no Vietname?

A Comissão para a Liberdade Religiosa dos Estados Unidos propôs colocar o Vietname de volta na lista de “países especialmente preocupantes em relação à liberdade religiosa, devido ao agravamento da situação dos crentes nesse país. A Comissão para a Liberdade Religiosa no Mundo, dos Estados Unidos, acaba de apresentar, no dia 30 de abril, sua pesquisa sobre o ano de 2009 (junho de 2008 até junho de 2009). O Vietname é um dos cinco países que a comissão propõe introduzir na lista de países em que as violações à liberdade religiosa são as mais graves.

Um dos membros da comissão americana, Scott Flinse, encarregado dos assuntos da Ásia, explicou esta decisão, informa Eglises d’Asie, agência das Missões Estrangeiras de Paris.

Flinse declarou à Radio Free Asia que, se o progresso realizado nas relações entre o Vietname e Estados Unidos, especialmente no campo do comércio, da segurança ou da luta contra as drogas, foi notável, ainda está longe de sê-lo em matéria de liberdade religiosa.

A comissão estima atualmente que a reinserção do Vietname na lista dos “países especialmente preocupantes” por causa de sua política religiosa seria uma medida adequada. Quando o Vietname foi inscrito pela primeira vez nesta lista, em 2004, foram percebidos progressos sensíveis e é possível pensar que a reiteração dessa sanção teria efeitos positivos.

A proposta da comissão americana de reinscrever o Vietname na famosa lista está justificada pelas perseguições que os crentes sofrem.

No relatório apresentado ao Departamento de Estado, está presente uma dezena de páginas das falhas da política religiosa no Vietname. Além dos fatos já citados, o texto menciona as diversas perseguições que afetaram as grandes religiões.

A Comissão para a Liberdade Religiosa no Mundo é uma organização independente do Governo americano que tem como função aconselhar o presidente em Assuntos Exteriores e os membros do Congresso dos Estados Unidos, nas questões relativas à liberdade religiosa e aos direitos humanos no mundo. Seu papel é unicamente consultivo. A lista de países especialmente preocupantes, redigida pela Comissão, deve ser aprovada pelo Departamento de Estado para ser efetivada. Em 2009, o governo do presidente Obama não adotou as mudanças propostas nessa lista pela comissão.

O Vietname foi introduzido nessa lista em 2004, pois o país não respondeu às exigências americanas de liberar certo número de pessoas religiosas da prisão ou de residências vigiadas. No final de 2006, pouco antes do presidente George W. Bush visitar Hanói, o Vietname foi retirado da lista em consideração aos progressos realizados pelo país no campo da liberdade religiosa.

Contudo, nos anos 2006, 2007 e 2008, a comissão propôs ao Departamento de Estado inscrever o Vietname novamente na lista, levando em conta a deterioração da situação religiosa, uma proposta que não foi aceita. Em outubro de 2009, o relatório anual de Assuntos Exteriores americano sobre a situação religiosa em 198 países do mundo afirmou que o Vietnã continuava progredindo nesse campo, mas subsistiam diversos problemas.

Veja aqui o texto completo do relatório.

Por Nieves San Martín WASHINGTON, quarta-feira, 5 de maio de 2010 (ZENIT.org)

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